A Guerra de Canudos como Literatura de Testemunha

prisioneiros

A literatura de testemunho teve como base grandes acontecimentos mundiais  como o Holocausto, a Segunda Guerra Mundial, a Querela dos Historiadores, a Queda do Muro de Berlim e a Unificação Nacional da Alemanha. Todos estes fatos propiciaram uma discussão mais aprofundada sobre os grandes traumas da humanidade. Além disso, o levantamento de novas informações sobre o testimonio revelou alguns fatores relacionados às consequências do trauma para os sobreviventes e colocou em evidência a maneira pela qual a situação vivida produziu grande impacto na sociedade leitora a partir de então. Devido aos novos conceitos e pesquisas disseminados pelo texto de testimonio, principalmente no âmbito literário, pode-se afirmar que a memória desencadeou um novo campo de visão a partir da inclusão de diferentes rumos e perspectivas para o discurso contemporâneo.

Traçando um panorama sobre a abrangência do testimonio no continente Latino Americano, temos os anos 1960, 1970 e 1980 como os grandes refletores de ocorrência do testimonio. Mas, o discurso testemunhal latino americano não pode ser visto apenas pela vertente literária, ao contrário, ele existe para além da literatura, ou seja, é uma forma de expressão denunciante da dor, do horror e de toda a espécie de proliferação de genocídios, guerras e abusos contra o ser humano. Desta maneira, na América Latina diferentemente da Europa e Estados Unidos, segundo Seligmann, o discurso de memória teve por pressupostos,

experiências históricas da ditadura, da exploração econômica, da repressão às minorias étnicas, e às mulheres […]. A política da memória possui na América Latina um peso muito mais de “política partidária” do que cultural. Dentro de uma perspectiva de lutas de classes, assume-se esse gênero como o mais apto a representar os esforços revolucionários” (SELIGMANN, 2006, p. 86 A 89).

Geralmente, o discurso de memória está arraigado a grandes traumas da humanidade, mas, muito do individual permanece implícito às linhas dos textos oriundos de trágicos acontecimentos sociais. Diz-se muito da memória individual porque os traumas que permanecem de grandes tragédias são vividos por seres humanos e, cada um sente o desfecho dos acontecimentos de acordo com as possibilidades físicas e psíquicas de que dispõe. Segundo Beatriz Sarlo “a memória é um bem comum, um dever (como se disse no caso europeu) e uma necessidade jurídica, moral e política”. Logo, é correto pensar que a memória individual renasce no caso d’ Os Sertões, de uma memória coletiva, ou seja, a memória do povo nordestino. A guerra de Canudos ocorreu entre os anos de 1896 e 1897 no sertão da Bahia, por isso pode-se dizer que a escrita de Os Sertões é uma representação da memória coletiva do povo sertanejo. A comunidade da região sertaneja teve seus passos documentados durante quase um ano, é possível  se ler o tempo cronológico presente na  retomada dos fatos que aconteceram no passado e se revelam no presente, principalmente para o leitor, aquele que tem a oportunidade de ler um livro em qualquer espaço de tempo. O tempo, nesse sentido, é trazido e revivido, é posto no presente e edifica os acontecimentos por meio da união que é sentida entre o que acorreu no passado e o que é possível de se saber no momento atual.

La Guerra del fin del mundo

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La guerra del fin del mundo (1981) é um livro de Mario Vargas Llosa, cujo texto apresenta a Guerra de Canudos, um episódio marcante da História do Brasil que ocorreu nos sertões entre os anos 1896 e 1897. Além da guerra de Canudos, a história de Vargas Llosa focaliza a entrada de um homem cujas maneiras impressionam a população sertaneja de modo a transformá-la em uma sociedade regida pela adoração e culto a um desconhecido, o Conselheiro. As personagens que seguem o desconhecido são todas das regiões do sertão e a ele se juntam para lutar contra a República – que para eles seria a precursora do mal na Terra e a partir disso, começa uma batalha entre o exército e os canudenses, cujo desfecho extermina todos os habitantes de Canudos. Segundo o autor, a obra levou oito anos para ser concluída devido às muitas pesquisas enveredadas para contar o que foi a Guerra de Canudos. É um dos livros que retrata o que aconteceu no sertão baiano no final do século XIX, uma vez que existem outras obras que também relatam o episódio no âmbito histórico-ficcional.

Na busca em decifrar os possíveis entrelaçamentos intertextuais presentes num texto, o leitor movimenta todos os aspectos inerentes a sua formação idiossincrática, ou seja, formação cultural e crenças. Assim, todo leitor pode ser considerado um criador de intertextualidade porque se relaciona e dialoga no/com o interior das operações textuais. O intertextual passa a ser questão de contextos, efeitos e sensações individuais, pois para que haja intertexto, antes deve existir um primeiro texto, depois precisa surgir o efeito novo mediante a leitura e, finalmente, deve existir alguém para que a recepção da leitura se concretize e se transforme em nova maneira de ver e sentir o texto literário. Quando o leitor consegue expandir as descobertas que fez através da leitura, ele participa mais profundamente daquilo que lê; a intertextualidade, então, oferece-lhe a possibilidade de sair do comum, porque o elemento intertextual detém o poder de promover novas situações discursivas: um verso pode aparecer sugerido numa crônica, ou vice-versa, provocando efeitos e sensações distintas. No romance, a intertextualidade pode acontecer de maneira esporádica como também pode alcançar a narrativa inteira, por exemplo, a intertextualidade pode ser vista num pequeno fragmento, numa citação, no nome de um autor, dentre outros. Tudo depende da importância que o autor dá ao que já foi dito anteriormente sobre determinado assunto. Em termos de dimensão, o romance possui uma característica à qual podemos chamar de híbrida, quer dizer, uma narrativa pode ser composta pela mistura de outros textos pela citação, por exemplo. De modo que dentro dessa hibridez, o entrelaçamento interno e externo que tece um texto dá-nos a oportunidade de dizer que as camadas de um texto precisam ser descobertas. A partir destas possíveis descobertas, existe o dito e o não dito, fatos reais ou ficcionais distorcidos, ampliados, ou ironizados em maior ou menor grau numa obra literária, os quais permitem um olhar mais atento ao que se enuncia. Todos estes aspectos podem ser sutis maneiras da intertextualidade configurar-se e trazer à tona momentos de uma obra, de uma época, aspectos de um território geográfico ou de um acontecimento marcante, embora a interpretação de muitos fatores intertextuais dependa também do perfil social de cada indivíduo, esse caráter vário induz quem lê a um grau mais elevado de leitura. Outro fator importante é que as maneiras classificadas por nós como sutis dependem do gênero textual e mais particularmente do texto em si. Existem alguns requisitos que colaboram para que uma obra literária seja compreendida dentro de suas particularidades, nesse caso, as disposições classificatórias da literatura em geral, mundial, universal e nacional. Tais disposições sustentam aspectos próprios que nos orienta através dos séculos e facilitam o entendimento das operações mutáveis entre um período literário e outro. Deste modo, há no intertexto alusões a outras épocas, referências a outros séculos e, às vezes, citações explícitas de outros textos, aplicadas como uma maneira de engrandecer as obras de ficção.

O Segredo de Irina

caixa de ferro

Um imenso navio pirata ancorou certa noite numa ilha do Atlântico norte, lugar onde viviam alguns pescadores, cujas moradias eram simples, mas organizadas de acordo com a chegada dos habitantes. Assim, o primeiro morador daquelas paragens possuía a casa mais distante e alta em relação às demais e era respeitado por ser o ancião do povoado. Tudo o que acontecia na ilha era resolvido na casa deste homem, de quem a  família era composta pelo casal e duas filhas. As meninas não eram belas. Tinham as pernas marcadas por picadas de borrachudos e a pele do rosto, especialmente as bochechas, ruborizadas, pois gostavam de correr nas areias do mar e assistir o sol se pôr sentadas nas rochas.  Certa feita, elas saíram para as areias, correndo e disputando quem era a mais ágil, depois banhavam-se nas águas para retirar o suor do corpo e sentavam-se nas pedras para admirar a voracidade do mar. Algumas vezes,  a mais nova dizia  que queria ser esposa de um pirata e conhecer todos os oceanos.

“Vou descer do navio do meu pirata exuberante, cheia de jóias bonitas. Depois visitarei o comércio da cidade. Quase sinto o aroma dos perfumes e escuto os rumores das pessoas…”

“Carlita, o papai não permitirá que se case com um pirata”.

“Nosso pai só saberá depois. Eu vou fugir, mesmo que me esconda no navio. Se lembra de uma vez que um navio pirata aportou em nossas margens? Esperarei novamente este momento, Irina. Hei de realizar a minha vontade. Quero conhecer o que existe depois da floresta”.

“Não quero viver num navio com piratas e tampouco ser esposa de um deles. Prefiro aqui, onde podemos estar todos juntos. Mesmo que isolados”.

“Você é uma tola, Irina, por isso nosso pai sempre disse que você é  uma ostra”.

Enquanto as irmãs conversavam deitadas sob as rochas, o casal foi limpar a casa e encontrou, debaixo da cama da filha mais velha, uma caixa de  ferro com alguma coisa na tampa, mas estava fechada numa solda de ferro fundido. Eles não entendiam o que queria dizer tudo aquilo. Imediatamente pegaram-na, puseram-na sobre uma mesa  e esperaram as filhas voltarem das areias. Elas sempre chegavam à noitinha, quando  o vento  estava mais intenso. A choupana não era próxima de onde elas estavam, mas elas vinham correndo e brincando, assim o caminho parecia mais curto.

Elas, às vezes, rolavam nas areias e jogavam conchinhas uma na outra. Outrora, banhavam-se no mar. Entre as areias e as águas,  logo estavam as duas ao alcance  da visão dos pais, que as esperavam sentados na porta da casa. Assim que Irina e Carlita se aproximaram da entrada do lar, o pai levantou, deu passagem às filhas e ordenou-lhes:

“Entrem e sentem-se aqui”. Apontou para as cadeiras da mesa onde estava a caixa encontrada naquela tarde. As meninas obedeceram. E ele continuou:

“Quero saber de quem é esta caixa e o que tem nela”.

“A caixa é da Irina. Ela encontrou na beira do mar. Vamos Irina, diga ao nosso pai sobre seu segredo?”.

“Eu achei a caixa no ano passado, quando choveu o mês inteiro. Veio com a maré. Eu a escondi porque gostei dela e a quero só para mim.”

“O que tem nela, filha?”

Irina pegou a caixa nas mãos e disse:

“Tem umas coisas na tampa, vejam. Não sei o que é. Eu passei muito tempo tentando descobrir e não consegui. Ela faz barulho também”.

A família ficou pensando numa forma de descobrir o que seria aqueles escritos marcados na tampa da caixinha. E balançavam-na inquietos para saber o que teria dentro do objeto encontrado por Irina. Ficaram matutando a noite inteira. Não dormiram olhando para aquele mistério. Exaustos de pensar em decifrar o que continha na caixa, adormeceram. Pareciam enfeitiçados. Quando despertaram, Irina parecia  perdida no tempo. Mal sabia distinguir se o que via era verdade ou sonho. Chamou impaciente todos ao seu redor:

“Pai, mãe, Carlita, acordem rápido!” Bocejos se ouviam.

“Vocês estão vendo o que vejo”?

“É um navio, um grandioso navio pirata!” Carlita falou sorridente.

“Fiquem aqui que eu vou falar com eles”. Disse o pai à família.

Alguns instantes depois, o pai das meninas voltou dizendo que o navio iria embora ao amanhecer. Haviam ancorado porque o papagaio do capitão morrera e  decidiram enterrá-lo ali em vez de dá-lo de comida aos peixes.  Todos pareciam aliviados com a notícia, menos Carlita, pois  assim que o pai se calara olhou-se no espelho, ajeitou os cabelos e, silenciosamente, saiu pelos fundos da casa em direção ao navio.  Quando estava numa distância segura, aproximou-se da embarcação. Olhou para todos os lados e se assustou quando ouviu uma voz autoritária dizer-lhe:

“O que está procurando, menina?”.

Carlita ficou ansiosa com a pergunta do estranho. Pensava que seus sonhos estavam prestes a se realizarem: casar-se-ia finalmente com um pirata porque o segredo da caixa de Irina era muito valioso e renderia  a ela a honra do matrimônio. E muito confiante disse:

“Quero contar um segredo ao dono do navio”

O homem gargalhou e parou para repetir as palavras de Carlita:

“Então, você quer contar ao capitão, um se-gre-do?”.

“Sim, temos um grandioso segredo guardado numa caixa. Passamos dois dias dormindo, enfeitiçados por ele”.

O homem ficou curioso.  Chamou o capitão e este ouviu toda a história da moça.  Ciente do segredo, os dois homens acompanharam-na até sua casa.  Quando eles entraram já foram ordenando à família para mostrarem a caixa trazida pelo mar. Irina e seus pais se encolheram num canto porque sabiam que os piratas não faziam nada de graça para quem quer que fosse.

“Não se assustem”! Clamou Carlita.

“Pai, o capitão vai nos ajudar a desvendar o segredo da caixa”.  Completou ela.

Então, concordaram em deixar o desconhecido abrir a misteriosa caixa.   Mas antes que o pirata começasse a cortar o ferro da tranca, o  pai perguntou-lhe  o que ele levaria em troca por aquele serviço. E ele respondeu que se houvesse um tesouro dentro da caixa,  ficaria com tudo e,  se não houvesse nada valioso,  levaria a filha mais velha consigo.

Carlita emudeceu e foi para junto da família. E todos voltaram a se encolher de pavor. Por fim, o capitão começou o serviço. Levou tempo. Ele suava e brigava com a caixa de ferro. Quando todos já estavam desanimados, a voz austera anunciou:

“Abriu! Abriu.  A caixa está aberta!”.

Desesperados para saber do conteúdo da caixa, esperaram até o pirata ver o que havia dentro dela.  E após conferir o interior do objeto, admirou-se o homem dos mares:

“Não pode ser. Mas o que significa isso? Quem guardaria algo com tamanha segurança”?

A família sorria, encantada. Abraçavam-se. E o pirata vendo aquela comemoração, ordenou à dona da caixa  aproximar-se e comprovar o fim do grandioso mistério. Irina, então, acercou-se do objeto aberto e viu uns quadradinhos de madeira desenhados. Depois, olhou para quem abriu sua caixa e perguntou:

“O que são todas essas coisas”?

“Você não sabe?” Ironizou o desconhecido.

“Não sei, Senhor. O que são elas”?

“São letras”.

“Letras”! Disseram admirados.

“Mas o que são letras?”  A família perguntou em coro ao viajante.

“Letras são pedacinhos de palavras. Com as letras vocês podem escrever o que quiserem ou sentirem. Basta juntá-las. Na tampa da caixa está escrito século XIV”.