Vestido de crochê

Escrito desde o Equador

A tarde estava abafadiça e impedia apreciar a beleza de certos lugares. Num comodozinho barato, o casal entrou. O telhado tapava os outros olhares e ali dentro ele começou a separar os cabelos dela. Podiam escutar um bolero arrependido que soava muito longe dali. A agudeza do som dava um certo cansaço em quem o escutava. Na frescura dos primeiros toques, aquela sintonia tristonha e vagarosa ajudava os amantes a tocar e acariciar suas peles geladas pelos sentimentos.

O laço do vestido de crochê só se desfez entre os dedos dos pés. E suas bocas secas podiam sentir o desejo de seus corpos trêmulos…lábios sem voz, desconhecidos e duvidosos. O casal procurava equilibrar-se no ar. A cama era o último destino, mas a olhavam de relance. Pensavam em fazer as coisas proibidas pelas suas crenças de pé, sentados…no chão ou numa cadeira. Na cama, não. A cama era altar. Lembrava compromisso, sacrifícios, fidelidade e matrimônio. Então… nos cantos do dormitório, baixaram suas roupas íntimas de modo infantil. Enquanto se olhavam, enlaçaram suas histórias em meio aquele verão e não foram mais os mesmos.  Ela que era um produto do meio, em todo verão indagava-se sobre um sentimento noturno que lhe fazia despertar, ir até a janela, abri-la e querer tudo aquilo de novo.

CARÁTER SUBJETIVO

Escrito em setembro de 2013

Na alma ficam as impressões

misturadas às lições aprendidas 

das momentâneas tentativas

do existir.

 Depois de tudo,

já não sou o que era.

O tempo me transforma

em não sei o quê.

Percebo nas folhas de algumas espécies ao redor,

nos raios do sol e na formosura de algumas flores

que tudo circula  passeando dentro e fora de mim

para mais tarde voltar,  tentando-me.

Deveras, mais.

Inconstância

Quando nascer o sol

Estarei a caminho

O bilhete te explicará

Tudo o que a voz temeu dizer.

O tempo ajudará a entender.

A culpa não é tua.

A inconstância que vive em mim,

  é a culpada.

Ao menos evitei ver

seus olhos tristes e desconsolados.

O nosso amor não era o mesmo

Havia um tempo de duração

e você sabia.

Juntos e separados

tentamos. Mas

Perdoa

A inconstância que vive em mim

Quer de novo

 sentir.

Corpo de poesia

Bastam os movimentos que dançam e seguem o traçado sem impedir   o mundo paralelo.  Encoraja o deslize dos dedos seguindo o compasso  e nascendo devagar, tão sem pressa, entrelaçando-se.

Corpo de poesia.                   

 Se os olhos podem penetrá-lo eis a luz mais bela que invade a retina. Segue a luz que ilumina a transcendência. A mesma comentada entre os amores da vida. Descansados. Adormecidos.

Corpo de sonhos, cheios de fantasias, dores, escândalo e magia. Corpo de agonia.Romântico em sua clandestina estripulia. Te querem, desejam, te repelem e tu  te entrega a poucos sem nada de promessas .Teu corpo é mar aberto, poesia. 

Dos amores meus

escrito desde 2012.

De todos os meus amores, não sei qual eu gosto mais…  por isso aprecio  amanhecer falando das coisas que nos fizeram companhia em meio aos nossos lençóis.

Ao entardecer, em frente ao pôr-do-sol abraço-a e acaricio seus cabelos longos para

Vermos juntos como é  belo e misterioso a união e entrosamento comedido

no  caminho feito pelos pássaros que parecem saciados da sede e fome.

Envolta em meus braços com os olhos fixos no céu  

ela sente vontade de ser menina vestida  de chita de novo

voltar aos campos, correr pela paisagem seca de dar dó e passar por entre os animais que descansam no pasto ralo e desnutrido. 

Digo a ela que olhe o sol se pondo. E ela volta porque é noite e anoitecemos juntos.