Percepção

Algum episódio varreu a mente e devastou uma memória que estava protegida. Preciso esquecer. Pensava. “Esquecer…é uma forma de proteger nossa dinâmica de armazenamento de dados importantes e que merecem ser lembrados”. Eu não me lembro de tudo…mas nós últimos tempos, nem passear estava nos meus planos. É o tempo. É o trabalho. É a imensidão unificada da linguagem simbólica da raça humana. Indefesa de afetos e universal em emoções. Mas as sinapses nervosas não funcionam igual. Que rapaz confuso se tornou depois que rompeu o romance com sua namorada. Nem raspava a barba e seus cabelos estavam gordurosos ou da alimentação, ou da falta de lavagem. Supunham todos o fato de ele não saber mais de si. A pobre mãe, única que ainda cria que o filho não havia sofrido os danos dos corações apaixonados, cozinhava o cuscuz meio adocicado e depois lustrava o alumínio mostrando ao filho. Olhe bem. Parece um espelho, sim? Ele, já desleixado logo pela manhã balançava a cabeça em sinal afirmativo e engolia o leite gordo junto com o mexido de milho. Olhando sempre para um ponto inexistente de algum lugar imaginário, descabido que se ia atenuando somente pela lembrança dela. E ele  pensava nos trinta e dois meses. Caminhava e contava. Dois encontros de chofre, vários poemas escritos e entregues, cuidei das plantas, pintei as paredes da casa, cozinhava pra ela, sim ela me ama e vai voltar. É o reflexo consciente da realidade que me encoraja…ela me ama e vai voltar. São só trinta e dois meses sem nos vermos.