O verbo de hoje

Começar é o mesmo que iniciar

Faça uma retrospectiva de sua vida e terá a resposta de quantas vezes você já praticou o começar. Muitas, seguro. Começar é a palavra-chave que denota a certeza de ter existido o princípio. É bom rever o início do início de tudo o que começou. Os inícios são mestres em ensinar. Já voltou ao início de um livro/texto que escreveu? O que sente quando passeia por ali? Se sente bem…Se sente não bem…recorda de entender os efeitos de sentido do que sente por causa dos começos que iniciou.

Coisas da noite anterior

            O casal conversava numa mesa de bar.  Muitas coisas começam e terminam numa mesa de bar, de shopping, de lanchonete… bem sabem. Eu sempre sentava na mesma mesa porque ficava perto do dono do estabelecimento, um velho conhecido meu. Assim, podíamos conversar sobre assuntos corriqueiros. Nesse dia, pedi uma bebida quente porque era inverno. As ruas estavam enfeitadas para o Natal e seu Néio seguia a tradição de montar uma árvore de Natal num cantinho do balcão. Ele colocava uma cestinha de vime para aqueles que pudessem doar algum dinheiro aos mais necessitados. Mais tarde, o dinheiro seria dado aos pedintes. Sempre tive a impressão de que a árvore parecia engordurada, mas isso não impedia os bondosos corações de depositarem suas moedas de solidariedade. Estávamos falando sobre a alta dos preços dos alimentos quando chegou um casal jovem e sorridente.

            O bar não recebia casais daquela faixa etária, isso nos chamou a atenção, principalmente a minha.  Os cabelos claros dela, hum. Tinha ela as formas bem-feitas e grandes olhos. Ele, um biotipo universal, bem-apessoado. Um casal cheio de ilusões que sentara próximo, na mesa ao lado, e eis…que deu nessas linhas.

            De primeiro riam em tom desagradável. Ganhavam olhares com isso. Entre um gole e outro, os risos começaram a diminuir e percebi que eles estavam numa conversa séria.

Conversavam sobre uma fotografia que ela não queria dar para ele. Ele insistia em ter uma imagem dela porque segundo ele, nos momentos em que ela não estivesse, ele poderia vê-la pelo retrato. O rapaz explicava a ela que o físico atraía, mas que uma fotografia era algo especial, mais ainda perto do Natal.

            Ele falava tudo com uma veemência que eu acreditei quando argumentou: “Meu amor, a questão da foto tem um motivo espetacular porque em algum momento houve o congelamento das partículas do ser que é fotografado. Estas partículas se juntaram num tempo passado que está presente, mas que, ao mesmo tempo, está ausente, entende? E as marcas peculiares do que se fotografou pertencem àquele momento e não saem dali, fixam a paisagem e o efêmero deixa de existir”.

Mesmo depois dessa explicação quase poética, a moça insistia em contrariá-lo explicando que os tempos hoje eram outros. “Não é preciso mais as fotos impressas.          Temos o celular, o tablet e outros aparelhos que guardam nossos arquivos para qualquer momento que queremos acessá-los”.

No entanto, o rapaz se dedicava a explicar que já havia perdido fotos do celular e que isso era bem comum. “Eu tinha um celular onde guardava todas as fotos dos primos e momentos importantes e, um dia, ele caiu na água do sanitário e eu não recuperei nem as fotos nem o aparelho, por isso quero sua foto, colorida e impressa para guardar de recordação”.

Então, a moça levantou da cadeira, pegou a bolsa, deu um gole a mais na bebida e retrucou-lhe: “Hoje temos as redes sociais com os famosos álbuns e podemos guardar nossos arquivos em nuvens. Uns compartimentos online que acessamos de onde queremos, por isso não darei  uma foto para você. Sinto muito”.

“Ei! Espera”! Disse o rapaz. “As nuvens são belas e com você, mais ainda”!

Ela nem respondeu ao acompanhante de outrora.

            O jovem ficou olhando-a sair e esteve conosco durante um tempo sem nos dirigir palavra alguma. Era mais ou menos meio dia, saímos do bar juntos, mas fui em direção contrária à dele. Ele sumiu na multidão, que esperava para passar o semáforo da avenida principal da cidade.