OUTRO = OURO

No trocadilho das palavras outro e ouro, o eu-lírico reflete sobre o compromisso do amor. Nas alusões  à convivência,  é expresso o sentimento de negatividade quanto ao relacionar-se.  E em reflexões pessimistas,  a voz que questiona no poema intui descobrir a essência de outrem, trabalho tão difícil quanto minerar, ou seja, quanto encontrar o ouro. Apesar das dificuldades e dúvidas em relação ao que sente, há evidências de que  conhecer o outro é missão quase impossível.

MINERAÇÃO DO OUTRO de Carlos Drummond de Andrade

[1] Os cabelos ocultam a verdade.
Como saber, como gerir um corpo
alheio?
Os dias consumidos em sua lavra
significam o mesmo que estar morto.

[2] Não o decifras, não, ao peito oferto
monstruário de fomes enredadas,
ávidas de agressão, dormindo em concha.
Um toque, e eis que a blandícia erra em tormento,
e cada abraço tece além do braço
a teia de problemas que existir
na pele do existente vai gravando.

[3] Viver-não, viver-sem, como viver
sem conviver, na praça de convites?
Onde avanço, me dou, e o que é sugado
ao mim de mim, em ecos se desmembra;
nem resta mais que indício,
pelos ares lavados,
do que era amor e, dor agora, é vício.

[4] O corpo em si, mistério: o nu, cortina
de outro corpo, jamais apreendido,
assim como a palavra esconde outra
voz, prima e vera, ausente de sentido.
Amor é compromisso
com algo mais terrível do que amor?
–pergunta o amante curvo à noite cega,
e nada lhe responde ante a magia:
arder a salamandra em chama fria.

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Como apagar uma imagem

Leu e entendeu sobre o funcionamento das emoções

e do amor nos romances antigos e atuais.

Tentou o físico como espaço agradável.

Os cabelos e a pele luziam

a tratamentos cosméticos.

Escreveu poemas de anatomia,

metaforizou os astros celestiais,

e embelezou a má quista maresia.

Soube que detectavam com exames laboratoriais

a imagem da pessoa amada em importante

região cerebral.

Teve medo.

Apavorou-se com a ideia  de que alguém

pudesse ver a imagem de sua amada

refletida em seu cérebro.

Aprendeu a não pensar nela

quando estava

com os amigos,

com a família,

e quando estava só.

Procedimentos para a análise do texto poético

EXERCÍCIO DE LEITURA (ANÁLISE)

 

Trata-se de uma “súmula” do pensamento ou da prática de análise propugnada pelo crítico Antonio Candido.

 

Ideia geral:

A análise correta torna-se mais acessível quando se começa pelo mais evidente e corriqueiro. Na análise literária, antes de manipular a complexidade dos modelos elaborados, ou penetrar nas camadas recônditas de significado, é preciso dominar a descrição do obvio; saber ler o sentido dos elementos modestamente constitutivos.

 

A análise deve procurar extrair o significado possível dos traços mais evidentes e observáveis, como a pontuação, rima, categoria gramatical, estrofação. Enfim, os elementos “materiais” do texto.

 

Alguns procedimentos básicos (passo a passo) para a análise de poema:

  1. o objetivo da análise não é o poeta, mas o poema;
  2. pelo menos a princípio, o poema deve ser tratado como “objeto” independente, observado a partir de características que são próprias dele (poema), não do poeta e nem do leitor
  3. não começar definindo o tema, pois isto equivale a fornecer o significado central antes da análise. Isto é, importaria em dispensá-la ou deformá-la por uma conclusão precoce. A análise poética demonstra, frequentemente, que o tema” quase nunca é o “assunto” ostensivo, ou a conclusão expressa; mas algo escondido, que é preciso descobrir.
  4. uma análise objetiva e metódica deve começar pelos elementos por assim dizer “palpáveis” do poema. Isto é, os que só existem nele, não no espírito do autor ou do leitor. Depois, a determinação dos múltiplos “sentidos” que brotam da sua dinâmica, e acabará nos “significados”, projeções do sistema de sentidos parciais.
  5.  sempre que couber, a primeira operação deve ser o estudo dos elementos relativos ao gênero onde o poema se enquadra, pois eles são normas anteriores que se tornam um ponto de partida impessoal.
  6. a seguir, é preciso esclarecer o sentido de cada palavra e cada verso.
  7. em terceiro lugar, focalizar os elementos “materiais”, os mais “palpáveis” de todos: metro, ritmo, rima, estrofação, pontuação e, sobretudo, a relação entre eles.
  8. nessas etapas, é preciso fazer um esforço para passar da descrição atomizada de cada elemento para a correlação entre eles, pois é esta que revela a fórmula própria do poema.

 

(CANDIDO, Antonio. Exercício de leitura. TEXTO. Nº 1. Araraquara, 1975.

 (Compreender é água para a combustão)

Palavra escolhida:  ESMIUÇAR.

ETIMOLOGIAmiúça, “coisa pequena, fragmento de algo”, do Latim MINUTIA, “coisa muito pequena”.

SIGNIFICADO: Explicar algo detalhadamente, dividir em partes.

SINÔNIMOS: Analisar, decompor, investigar, particularizar, pormenorizar.

 Não causa dano o fato de incompreender uma fala, um pensamento, um tema ou alguma situação. O que pode ser prejudicial nesse caso é, se essa falta de compreensão,  ocasionar a não  resolução de um problema importante,  os maus resultados numa prova ou se dela haver a deterioração da integridade da pessoa humana. Em todos os momentos aos quais os elementos implícitos de uma informação, por exemplo, não são totalmente explicados, torna-se necessário proceder-se esmiuçando os detalhes  para que os mesmos sejam descobertos e assim, as possíveis dúvidas serem solucionadas.

Há numerosas pesquisas que se explicaram por causa do “esmiuçar”  de todos os pormenores possíveis e invisíveis a olho nu. Lembra das provocações do professor nas aulas de leitura e compreensão de textos?

Aquele ir e vir nas linhas e entrelinhas de um  “conto” em busca de respostas,  não deixa de ser uma forma de esmiuçar o dito no texto. A compreensão da leitura, nesse sentido, é uma espécie de reelaboração dos significados através da aprendizagem das ideias mais importantes e da relação que se estabelece com outras ideias possíveis de serem confirmadas.

Pensando na rotina que vai se assumindo todos os dias, compreender o dito em um texto,  exige uma luta constante entre o que eu acredito estar lendo,  o que está posto e o que é possível de se comprovar com a leitura.  Compreender algo é  acontecimento intrínseco e o ser humano, para fazê-lo,  esmiúça a todo o tempo, inclusive inconscientemente.

Há  movimentos de percepções sensoriais  entre o mundo externo e o interno que se chocam em determinados momentos e elevam em grau maior ou menor a preferência por determinados gostos, opiniões, crenças,  atitudes e modos de compreender . Mais que isso, as experiências que o ser humano vai construindo ao longo de seu tempo também constituem fator essencial para a construção da habilidade de compreensão.

“Compreendemos quando fazemos parte do que nos é dito”  Heidegger.

 

Obrigada por ter lido este post!!!!! Espero que estas linhas tenham tido algum sentido para você.

Vera Lucia de Oliveira

Esta semana foi aniversário de Vera Lucia de Oliveira – poeta  brasileira que vive na Itália a quem tive a honra de conhecer pessoalmente. Dentre seus maiores sucessos literários apresento um poema do livro  Geografia d’ombra, 1989 – cujo tema é a solidão, sentimento explorado pelo eu-lírico que contempla a cidade e toda a urbanidade  nela presente. Outro aspecto da poesia de Vera Lucia,  é o saudosismo reflexivo. No poema abaixo percebe-se a angústia do eu-lírico que é retratada pela metáfora útero. O útero  remete à vida, à fertilidade, à maternidade, à proteção e, finalmente, à saudade…vontade de estar próximo à mãe.

 

O Útero

Em outubro todas as cores me exilam,

As folhas que piso me corroem

 

Nasci em um país que não muda quase

Cara

Aprende-se a morte em país perpétuo?

 

 

A velhice é uma lição

diária

 

As folhas que piso

perfuram-me

 

adoecer é sonhar o útero

 

 

Olhando ao redor

O século XIX possibilitou às massas  mais acesso à leitura devido ao grande número de tiragem de jornais,   daí surgiu  a crônica   que começou a circular por todo o País retratando os acontecimentos do momento, assim como outros fatos que aconteciam no esporte, cotidiano e economia. O texto-crônica foi organizado dentro de uma estrutura que mais tarde foi formalizada para que o mesmo pudesse ser trabalhado nas instituições de ensino.

P.S. Escrever uma crônica é, também, dar uma olhada ao redor de tudo o que acontece entre o meu, o teu e o mundo de todos nós.

 A estrutura da crônica

A crônica possui um espaço pequeno se comparado às narrativas. Conta-se fatos que acontecem no dia-a-dia. Há a movimentação de poucos personagens. Geralmente o tempo é indeterminado e a linguagem utilizada é simples e de fácil entendimento.

Exemplo de uma crônica reflexiva:

No ermo

Ia pela rodovia atento àquele destino longe ao qual precisava chegar. Os barulhos dos motores dos carros deixavam a pista perigosa. As horas passavam e, nas minhas lembranças, via o canteiro de coqueiros enfileirados da avenida principal da cidadezinha. A imagem do padroeiro também me recordava a última festa que participei anos atrás. Tudo estava vivo desde a última vez que visitei a minha tia. Até a praça onde ia lanchar com os amigos dos meus primos parecia estar na minha frente. Boas recordações. Sabia que estariam do mesmo jeito as cores das fachadas, as pequenas casas de comércio local, os botecos e o tradicional posto de gasolina. Como podiam viver naquela pacatez? Como eu viveria ali? Eles não conhecem outro mundo, respondia a mim mesmo enquanto manobrava o volante nas curvas da estrada. Ah! Esqueci-me do trevo, que nesta época, mostra uma vegetação moribunda e de difícil reconhecimento. Ali uma única árvore sobrevivia àquele sol intenso. É lógico que a entrada da cidade e a árvore estariam do mesmo jeito. E estavam quase do mesmo jeitinho quando os avistei. Mas desta vez tinha algo diferente naquela rotatória. E eu, aproveitando para acalmar a tensão da viagem, diminui a velocidade do automóvel, assim, podia ouvir o som que contrastava mais e mais com o ruído do motor. Eu olhei de novo para ver se o que eu enxergava era verdade. E para a minha surpresa eu não estava vendo coisas. Era real.

Então, o estafante calor sumiu, de repente e a pressa de chegar e concluir a venda da casa que recebi de herança diminuiu conforme eu me aproximava daquilo que seria para mim o motivo de contar esta história hoje. As minhas mãos começaram a limpar o suor que escorria pela minha testa, rosto e pescoço como se eu fosse um menino que enxerga pela primeira uma tomada elétrica e decidiu testá-la.

Não ousei dizer nada. Só fiquei olhando tudo, ou melhor, ouvindo tudo o que acontecia naquele ermo castigado pelo sol.  Era tão único. Tão diferente e tão quente como o clima da região.

Fui aproximando-me, devagar da figura masculina debaixo da sombra. Olhei-o  novamente, mas dessa vez,  querendo dialogar.

Poderá parecer simples o que eu vi, mas foi simplesmente demais. Fui aproximando-me devagar e quando estava numa distância segura,  perguntei-lhe:

“Porque faz isto aqui em plena luz do sol?”

E ele me respondeu:

“Isto é o que eu faço pra sobreviver”.

” Existem lugares melhores para que desenvolva seu trabalho. Assim não corre o risco de alguém te interromper como eu faço agora!”

O rapaz olhou-me, desconfiado  e perguntou:

” Porque não seguiu sua viagem?”

“Não consegui. Precisava parar para te dizer: ” Em todos meus anos de vida essa é a primeira vez que vejo uma cena dessas, num lugar tão quente e abandonado.”

Continuei perguntando:

“O que significa pra você estar aqui, entoando esse saxofone ao vento?”

“Para mim, tudo.” Ele me respondeu.

E, ficamos em silêncio.  Ouvindo algumas folhas secas  que iam voar com a ajuda de um vento tímido que passou.

Como o saxofonista resolveu continuar sua melodia,  eu segui rumo à cidadezinha. Fechei o negócio da venda da casa e quando fiz a rotatória do trevo ouvi o mesmo som de quando cheguei.

Durante a viagem de volta,  escutei o ritmo daquela melodia solitária. Zunia em meus ouvidos a cantiga triste do rapaz. A solidão da cena da árvore me contagiou  e me fez ver o mundo de outra maneira: na solidão também existe beleza. E ela pode andar por despercebidos lugares, de diversas maneiras, pode inclusive ser um passo para a felicidade.

 

Há uma divisão entre os tipos de crônica:

Crônica Lírica ou Poética

Utilização de linguagem poética e metafórica para contar os fatos observados.

Crônica de Humor

Texto que apresenta uma visão irônica ou cômica dos fatos em forma de comentários, ou de um relato curto.

Crônica-Ensaio

 É quase um ensaio, do qual guarda a proposição argumentativa.

Crônica Descritiva

Nesta categoria há a caracterização de seres animados e inanimados, mostrados como se estivessem numa tela pintada.

Crônica Narrativa

Tem por base uma história, pode aparecer diálogos, tanto na 1ª quanto na 3ª pessoa do singular.

Crônica Dissertativa

Opinião explícita, não se usa a citação direta, mas sim um modo mais direto de mostrar a opinião, sem rodeios.

Crônica Reflexiva

Reflexões filosóficas sobre um assunto

Crônica Metafísica

Constitui-se de proposições filosóficas sobre a vida humana.

 

 

(palavras de um senso comum) tão diacrônico!

01-08-2018″

Agosto, mês em que as ventanias começam, o folclore aparece e os cachorros…se tornam loucos. Começam a sofrer de raiva no mês que não tem a letra ” R”( palavras de um senso comum) tão diacrônico!!! Pausa para uma poesia:

No tempo dos ventos mais esperados

os motivos surgiam por intentos vários.

E depois, seguiam em todas as estações,

ano após ano.

Nos momentos em que muitos

não esperavam mais nada.

Surgiam, pois, no cais,  depois das tempestades,

alcançavam as vagas das ondas

de um rio desesperado.

atingindo o lumiar das estrelas no céu nublado.

Tudo aconteceu numa tarde de ventania em que os moradores do povoado com receio do Saci-Pererê aparecer e azucriná-los, puseram-se em seus barcos e partiram em visita a uma ilha próxima de si. A noite de lua cheia chegou. Era tudo solidão e um ser misto de homem  e lobo marcou seu território urrando desesperado na escuridão erma e sinistra, povoada, apenas, por sombras esfumaçadas. As pessoas então, longe dali, se divertiam brincando nas águas de Iara. Elas estavam sendo observadas por Curupira desde uma mata fechada. Não sabiam que o menino de cabelos vermelhos estava tão próximo. Então, pulavam felizes jogando água para cima e para os lados até darem pela falta de um jovem…que fora seduzido pela Senhora das águas.

“Eu bem que ouvi um canto quase impossível”. Comentaram.

O mês de agosto é mais que os ventos que arrastam as folhas e o pó…len para todas as direções. É mês de apreciação dos contos e lendas que  levam as crianças a saírem de sua zona de conforto e imaginarem esses personagens dentro do mundo em que os mesmos foram criados. Uma roda de leitura mediada por um bom contador de histórias, eis que fica uma tal ingênua provocação.